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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Quem é Jesus?- Análise Exegética Evangelho de João




João 1: 1, 14

" PRÓLOGO DE JOÃO: UMA MENSAGEM ESSENCIAL DO SEU EVANGELHO".

"Vs. 1 - No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Vs. 14 - E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai" – Edição Revista e Atualizada.
O versículo 14 funciona como um divisor das águas no primeiro capítulo deste evangelho e, também, como uma introdução de toda a obra cristológica que vem a seguir. Este texto - 14a - é muito semelhante ao final do verso 1 quanto a sua forma gramatical. No fim do vs. 1 encontramos uma estrutura composta por uma conjunção, um nominativo, um verbo e um nominativo seguido de artigo - kai. qeo.j h=n o` lo,goj (kai Théos en hó Logos - e o verbo era Deus). No verso 14a temos a mesma estrutura: uma conjunção, um nominativo, um verbo e um nominativo seguido de artigo (embora não apareçam na mesma ordem) -Kai. o` lo,goj sa.rx evge,neto(kai hó Lógos sarks egeneto - e o verbo se fez carne). Neste primeiro versículo temos a eternidade do lo,goj, sua relação com o Pai e sua divindade. A diferença entre os versos um e catorze não está a quem se referem, pois os dois falam da mesma pessoa, mas na ênfase dada; No vs 1 a ênfase recai sobre a divindade do lo,goj. Este Lógos é o próprio Deus.
O vs. 14 está relacionado, intimamente, com o verso 1, visto que esse lo,goj , descrito por João, é o Deus que se fez carne - o` lo,goj sa.rx evge,neto(hó Lógos sarks egeneto - e o verbo se fez carne). João nos apresenta o Deus-Conosco, o Emanuel, o Deus-homem, o Deus de carne e osso. A ênfase agora está na humanidade do lo,goj. Ao fazer isso, João ataca, violentamente, mas de forma sutil, a idéia gnóstica, expressa pelo docetismo, de que Cristo tinha apenas a aparência de homem, mas que não tinha corpo físico, real, de um homem.
A encarnação do lo,goj (que é Cristo) não se limitou apenas ao seu nascimento, mas por toda a sua vida enquanto esteve entre nós e nesta mesma condição na qual ele, Cristo, continua subsistindo com a mesma natureza (cf. At 1: 6-11; Ap 1: 7). A encarnação de Jesus é o próprio Deus manifestado na carne: E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne... (1Tm 3.16a, Texto Bizantino).
Esse fato de se manifestar na carne nos remonta para o ato de Deus se fazer presente no meio de seu povo no deserto, porém não fisicamente como Jesus. João ao escrever "... habitou entre nós..." faz uso da palavra grega (evskh,nwsen – eskénosen) cujo substantivo se deriva de uma palavra que quer dizer tenda, fazendo, assim, uma alusão ao passado do judeu onde o seu Deus veio habitar no meio deles enquanto peregrinavam pelo deserto.
Dessa maneira, a presença de Deus conduzindo o seu povo no período mosaico é testemunhada e lembrada na pessoa física do lo,goj, mostrando que o Deus do AT presente no meio daquela congregação é o mesmo Deus que se revelara por meio do Senhor Jesus Cristo; fato, este, que acaba por manifestar a glória de Deus como nos diz o restante do versículo - ...vimos a sua glória. Essa glória não era uma visão como foi no caso de Isaías e na transfiguração, por exemplo. Mas João e alguns de seu tempo puderam ver a glória de Deus através de Jesus numa série de eventos a partir de seu nascimento, batismo, morte, e até sua ressurreição.
O próprio evangelista, ao escrever sua primeira epístola universal, capítulo primeiro e verso 3a, testifica deste fato quando diz: kai. h` zwh. evfanerw,qh kai. e`wra,kamen kai. marturou/men(kai He zoe efaneróthe kai eorákamen kai martyrumen - Porque a vida foi manifestada, e nós a vimos, e testificamos…). O verbo e`wra,kamen (eorákamen) traduzido por vimos – encontra-se no Perfeito Indicativo Ativo cuja qualidade da ação quer dizer algo que aconteceu no passado e tem a sua validade ainda para o tempo presente. Com isso, João diz que eles viram o lo,goj encarnado e o testemunho que tem sido dado pela igreja no presente se baseia nesta verdade. Deus se encarnou, continua encarnado e por isso nós testemunhamos, continuamente, acerca desse Deus, visto que o verbo marturou/men (martyrumen - testemunhar) encontra-se no Presente do Indicativo Ativo, indicando uma ação, preferencialmente, linear, contínua. A proclamação contínua da realidade da encarnação do verbo é o conteúdo da pregação apostólica.
Para ratificar esta mensagem, João se utiliza de um empirismo teológico. Ele começa o verso de número 1, do capítulo 1, da primeira epístola de João, com a seguinte frase: ai` cei/rej h`mw/n evyhla,fhsanperi. tou/ lo,gou th/j zwh/j(hai chereis hemon epseláfesan peri tu logu tes zoes – e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida). O verbo evyhla,fhsan (epseláfesan - traduzido por apalparam) encontra-se no Aoristo Indicativo Ativo, mostrando uma ação pontilear, uma ação vista como um todo, completa e definitiva, pois não se repete. Sendo assim, João quis dizer que, enquanto o lo,goj – encarnado para sempre – esteve no meio deles, verdadeiramente, as próprias mãos dos apóstolos tocaram, fisicamente, o lo,gojde Deus,o unigênito do Pai (monogenou/j para. patro,j – monogenus pará patrós).
Esta frase monogenou/j para. patro,j é mais do que uma simples metáfora. Jesus não recebe uma glória como se fosse apenas o unigênito do pai, mas a recebe porque ele reflete plenamente, ou melhor, perfeitamente, essa realidade.
O termo unigênito (monogenh,j) não focaliza o seu nascimento, mas enfatiza o fato de ser ele o objeto do amor do Pai. Há entre o Deus-Pai e o Deus-Filho uma relação filial diferenciada de tudo que temos em relacionamentos, humanamente, conhecidos. João tem a intenção de fazer uma distinção entre o relacionamento exclusivo de Jesus com o Pai e entre aqueles que viriam a ser filhos de Deus por meio dele. João nos mostra que Cristo se relaciona diretamente com o Pai e os demais filhos de Deus se relacionariam com o Pai por intermédio de Jesus Cristo, o mediador desta relação. Esta expressão, também, nos faz lembrar o batismo de Jesus.
É uma expressão empregada com o mesmo sentido, por assim dizer, da palavra amado (avgaphto,j – agapetós) nos evangelhos sinóticos por ocasião da voz que veio do céu dizendo: "...Este é o meu Filho amado..." (Mt 3.17; Mc 1.11; Lc 3.22). João dá o testemunho que a partir da encarnação do lo,goj, ele, João, e os outros que estavam presentes naquela ocasião, viram a glória de Deus, em Cristo Jesus. Uma glória que só Cristo poderia ter e expressá-la. Única.
Para concluir, nesta parte do evangelho de João chamado: prólogo, encontramos a divindade e a humanidade de Cristo descritas nestes dois versos. O versículo que faz a separação das narrativas entre essas duas naturezas é o vs. 14. Antes do verso 14 temos a ênfase na divindade e depois deste versículo a humanidade; e no restante do livro joanino toda esta parte (o prólogo) pode ser vista. Como bem disse Champlin: "Este vs. 14 faz parte integral da seção que cobre os versículos catorze a dezoito, e que serve de coroa da doutrina do Lógos, parte essa que contém a mesma mensagem essencial do evangelho inteiro de João."
Isso nos traz algumas implicações para a nossa vida :
Com relação a aquilo que muitas vezes nos assalta – o nosso sofrimento – podemos descansar e confiar em Cristo porque ele sabe exatamente o que é padecer, pois experimentou, no seu próprio corpo, todas as nossas mazelas físico-emocionais porque se fez carne e habitou entre nós;
Como Deus-Homem ofereceu um perfeito sacrifício a Deus-Pai em favor dos seus eleitos, a tal ponto de poder dizer para o próprio Deus, nos momentos finais de sua vida, pregado naquela cruz: "Está consumado". Tudo que era necessário fazer para o eleito receber a salvação foi feito e sem falta alguma;
Como Deus-Homem oferece uma perfeita intercessão por seus eleitos diante de Deus-Pai; o nosso Sumo-sacerdote, diariamente, advoga as nossas causas perante Deus-Pai que nos ouve as orações e nos abençoa mediante Cristo Jesus;
O amor de Deus-Pai, por seus filhos, se evidencia no amor que ele tem por seu eterno Filho Jesus. O amor de Deus jamais acaba;
A encarnação, definitiva, de Cristo serve de base para a nossa contínua pregação do evangelho. Nós pregamos aquilo que Jesus fez por nós, desde a sua encarnação até a sua morte, ressurreição e ascensão aos céus.

Estudo Bíblico Aprofundado de Atos 1:8 Parte II




Continuação da Exegese de Atos 1:8
Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra.
1.1- No evangelho, Lucas escreveu o que Jesus começou a fazer e a ensinar. Em Atos, o que o Senhor continuou a fazer por meio de Seu Espírito
1.2- Jesus passou quarenta dias após Sua ressurreição e antes de Sua ascensão falando aos apóstolos das coisas concernentes ao Reino de Deus. Daqui podemos apreender duas coisas fundamentais e básicas:
A preparação de uma liderança é fundamental para o estabelecimento de uma missão.

A promessa do Pai, o batismo com o Espírito Santo é condição espiritual para realização da obra. Os apóstolos estavam preocupados com o tempo da restauração do reino a Israel e Jesus queria que estabelecessem a Igreja, que fossem Suas testemunhas de Jerusalém até os confins da terra, pelo poder do seu Espírito Santo.
avlla Allá- conjunção. adversativa, MAS, PORÉM (mais forte do que de dé) que indica um contraste grande entre a perspectiva dos Apóstolos, preocupados com aspectos escatológicos, talvez detalhes, em detrimento da visão ministerial que o Senhor da Igreja tinha para ela. Isso acontece todos os dias na maioria das igrejas...qual é a visão de Jesus o SENHOR da Igreja e qual a visão dos membros da Igreja?
lh,myesqe lempsesthe - 2°pl. do Futuro lndicativo Médio Depoente ou 2° pl do Aoristo imperativo ativo de lamba,nw ( lambanõ).
O futuro no grego preferencialmente indica uma ação pontilear, no Indicativo o aspecto temporal está presente, sendo também o modo da certeza, fato realidade, recebereis com certeza, de fato, na realidade.
O aonsto indica uma ação PONTILEAR, em ato e não um processo. Observe o §557 da Pequena gramática do grego Neotestamentário Coinê (Francisco Leonardo) no imperativo como no subjuntivo estes dois tempos (Presente e Aoristo) não se referem a tempo algum, a não ser um futuro proximo: recebei vós. Larnbanõ significa TOMAR, PEGAR, APOSSAR-SE, Mt 26:26a; Me 12: 19-21; 15 23 . = AGARRAR, APODERAR-SE Mt 2 I :35,39; Lc 5:26.
Os cristãos deviam praticar a ação de agarrar ou apoderarem-se do poder de Deus. Isto aconteceu, quando:
Obedeceram.. ficando em Jerusalém, I :4; Jesus comendo com os apóstolos determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, I: 12, após a ascensão de Jesus os discípulos voltaram para a capital em obediência ao Mestre. Obediência é um pré-requisito para a manifestação do Espírito.
Confiaram 1:4b "mas que esperassem a promessa do Pai, a qual disse Jesus, de mim ouviste." Os apóstolos confiaram nesta promessa, precisamos exercitar a fé baseada nas promessas de Deus para que o Espírito opere e sejamos verdadeiras testemunhas.
Oraram 1: 14 "Todos estes perseveravam unânimes em oração, com as mulheres, com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dEle". A oração humana precede a ação divina.
Uniram-se 1: 13-15; 2:1 "Ao cumprir-se o dia de Pentecostes. estavam "todos reunidos no mesmo lugar" A unanimidade, a reunião no mesmo lugar possibilitou a participação de todos no recebimento da virtude divina. A unidade é como o óleo precioso, Sl 133:2.
Recebereis du,namij - dynamis - PODER, FORÇA, FORTALEZA, ENERGIA Mt 22:29; At: 1:8, o próprio Deus Mc 14:62; ato poderoso, milagre Mt 11:20s Mc 6:5 II Co 12: 12 .
Mt 22:29 "Respondeu-lhe Jesus: Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus" .
Mc 14:62 "Jesus respondeu: Eu sou, e vereis o Filho do homem assentado à direita do Todo-poderoso e vindo com as nuvens do céu com poder e grande glória", quando recebemos o dynamis estamos recebendo a mesma força, energia que Deus possui em plenitude .
Jesus exerceu este poder, intervindo nas leis naturais e realizando feitos extraordinários. Os milagres responsabilizam ainda mais os ouvintes ao arrependimento II Co 12: 12 As credenciais do apostolado foram apresentadas no meio dos coríntios, com toda a persistência, por sinais, prodígios e poderes miraculosos (dynamesin) Este poder serviu de credencial apostólica .
Continua parte III.

Uma Análise Exegética de Atos 1:8 Parte I


ATOS DOS APÓSTOLOS – O PODER PARA TESTEMUNHAR
ANÁLISE EXEGÉTICA DE ATOS 1.8


O livro de Atos denominado dos Apóstolos deveria ser identificado, na realidade, como Atos do Espírito Santo.
Atos é o registro da ação do Espírito Santo no estabelecimento, desenvolvimento e fortalecimento do corpo de Cristo sobre a terra.
O crescimento é algo para um organismo vivo, não é diferente com a Igreja.
A Igreja cristã não deve perder a perspectiva de expansão sem perder de vista também a qualidade. Não podemos usar esse jargão da qualidade para negligenciar a expansão do reino. A qualidade é fundamental, mas um crescimento sadio e harmonioso também o é, incluindo uma organização, uma estruturação eficaz, isto é o que percebemos no texto a seguir.

Capítulo 1
Verso 1 No evangelho, Lucas escreveu o que Jesus começou a fazer e a ensinar. Em Atos, o que o Senhor continuou a fazer pelo seu Santo Espírito.
Verso 2 Jesus, antes de subir aos céus, passou ainda 40 dias falando aos Apóstolos das coisas concernentes ao reino de Deus. aqui notamos que a preparação de uma liderança é fundamental para o estabelecimento de uma missão.
Verso 4,5 A promessa do Pai, o batismo com o Espírito Santo é condição espiritual para a realização da obra.
Verso 1: 6-11 Os Apóstolos estavam preocupados com o tempo da restauração do reino a Israel e Jesus queria que estabelecessem a Igreja, que fossem suas testemunhas de Jerusalém até os confins da terra, pelo poder do Espírito.
Contudo o texto que gostaríamos de destacar e será alvo de nossa análise é Atos 1:8.
Continua parte II

O SENHOR DOS EXERCITOS PARTE II




Porquanto que isto seja verdade esta conotação não se restringe a este comando de tropas militares, como diz John Hartley, bem fundamentado biblicamente, "na verdade afirma o governo universal de Javé, que abrange cada força ou exército, tanto celeste, quanto cósmico ou terreno" (Hartler, 2001:1258). Isto significaria a supremacia do Deus de Israel sobre os outros deuses. A compreensão sobre os outros deuses. A compreensão sobre este Deus ficaria mais ampla, porque o Deus guerreiro seria também o Deus Supremo. Nenhuma nação na terra poderia nada contra o deus de Israel. Nem o Egito pode, nem Amon, nem Moabe, nem as nações cananéias, nem qualquer outra nação. Os poetas hebreus contaram essa glória:

"Pede-me, e te darei as nações como herança e os confins da terra como tua propriedade. Tu as quebrarás com vara de ferro e as despedaçarás como a um vaso de barro. Por isso, ó reis, sejam prudentes; aceitem a advertência, autoridades da terra"

Não há exército que possa com o Deus de Israel. Ele é o Deus Supremo, Salmo 46: 9 – 11.

Nesta direção, Deus rege a ordem da terra e do céu. Essa harmonia terrena e celeste é comandada por deus, o Deus de Israel. Por isso é dito que ao final da criação Deus é autor de tudo criado sobre a terra e no céu: "E foram terminados os céus e a terra e todos os seus exércitos" (Gen. 2:1). Não há como fazer um corte entre a produção literária e a cultura de onde o texto emergiu, nem como desligar a criação da conotação da experiência vivencial. É evidente a origem das onomatopéias, do "tic-tac" do relógio ao verbo "tictatear". Não se pode omitir o barulho do vento nas rochas das montanhas e montes de Israel com o som da palavra "vento" em hebraico HWr (Ruac) Há toda uma fundamentação vivencial da formação dos conceitos, como diz Humbolt "nada passa pela intelecto que não tenha passado antes pelos sentidos" __ Embora os sabores são diversos, e haja o amargo e o doce , o doce e o azedo, há um fundamento comum: as papilas gustativas.

Como o nome de Deus na descrição da criação foi ~ihla? Porque sua origem é de hla, que significa "força", "autoridade", "poder". Nenhuma palavra se adequaria melhor àquela narrativa que descrevia as ações de um deus que para criar teria que ter "poder". Como o nome de Deus nos textos que falam da comunhão e da convivência é hUwhiy ? Porque é um nome que implica proximidade, aproximação, presença.

Como a expressão referente ao Deus das batalhas é twabc hUwhiyi? Porque nenhuma outra expressão iria implicar no sentido necessário para expressar do Deus que luta pelo seu povo. É esse majestoso deus, temível e guerreiro, que comanda Israel.

O uso sincrônico da expressão :

Façamos, agora, um corte epistemológico no uso da expressão, levando em conta o contexto histórico, no qual os profetas se apossaram daquela expressão conhecida comumente, para dar-lhe um sentido especial. Sendo isso feito especialmente no círculo dos profetas pós-exílios. A compreensão que esses homens de Deus tiveram do Deus deles, naquele momento difícil da vida do povo, fica marcada insistentemente nos seus escritos, onde se registra uma incidência de uso jamais constatada nos outros escritos, também sagrados, dos descendentes de Israel.

Os últimos três profetas escritores pós-exílicos tiveram como contemporâneos, entre tantos outros, Esdras e Neemias. Este usa com freqüência a expressão ~imsh ihla hUhi(YHWH Deus dos céus) como o nome do Deus do seu povo. Faz uso também do nome mais comum e universalizado ~ihla, como aquele que está em Jerusalém (Ne. 1:3). Conquanto esteja em Jerusalém, o Deus dos descendentes de Israel é o Deus também do céu. Este sentido é o que também entendiam alguns profetas pré e exílicos, como é o caso de Isaías (Is.10:5-4;47;37:16) (Jr. 10:16, etc). Deve-se levar em conta, na escolha deste título para Deus, o próprio contexto situacional de Neemias, que vivia como um funcionário do palácio do rei dominador do mundo mais conhecido de então. Ambiente que não poderia ser desconsiderado com todas as expressões próprias da função exercida no seu âmbito vivencial. Esdras também usa uma expressão, podemos asseverar, "politicamente correta", Larsy ihla(Deus de Israel), pois afirmar o Deus de Israel não seria negar os deuses das outras nações, seria afirmar um entre outros, embora considerando o seu Deus como o maior, o mais forte, o mais importante. Apesar de todo o exemplo de vida consagrada e de dedicação profunda a Deus e do próprio ambiente, onde exerciam as suas atividades eram necessários os cuidados e requintes diplomáticos devidamente aplicados no cotidiano da vida intrincada da política interna e externa. Neste contexto vivencial as possibilidades de reflexão teológica eram praticamente reduzidas. A preocupação aí era mais de conservação do poder, manutenção do "status quo", de uma ação diplomática adequada, para evitar o confronto externo em falência interna. Daí o cuidado e a diplomacia de Esdras e Neemias, os quais se referiram a Deus de um modo bastante conveniente e cuidadoso.

No entanto, isto não ocorreu no círculo profético que foi formado no cativeiro. Nesse contexto o pensar era livre dos obstáculos da diplomacia política. Entre os profetas, a expressão twavc hUwhy foi tomada com um sentido bem mais amplo do que o até então conhecido. Fica evidente que a incidência de uso é amplamente maior do que em qualquer outro período da história da elaboração dos textos sagrados. Ageu, Zacarias, Malaquias e outros profetas que não escreveram, mas que faziam parte do círculo profético na Babilônia, se apossaram da expressão acima e a usaram para comunicar a compreensão que tiveram de Deus naquela situação aflitiva, que é a de estar no cativeiro, numa terra estrangeira, numa situação incômoda. É, exatamente, aí que surge a indagação a respeito da situação real de vida: por que fomos expulsos de nossa pátria ? O que nosso Deus tem a ver com tudo isso ? Como compreender um Deus que permite tal mudança? Por que o sofrimento da guerra e da deportação humilhante ? E perceberam que Deus é mais do que comandante dos exércitos. Mais do que autoridade sobre os astros do céu. Ele é soberano sobre todos os aspectos da vida do seu povo. Ele não seria somente o i (Gn.22:14, "Senhor proverá"). O ("Senhor é minha bandeira", Ex.17:15); o ("Senhor Deus é nossa justiça", Jeremias 2:1); o ("Senhor é paz", Juízes 24:6); ("Senhor que está lá") nem o (altíssimo); (o que provê); como o vê Isaías amplamente em seus escritos, mas, sendo esta expressão enriquecida pela experiência do cativeiro, lida e relida refletidamente por um grupo de homens preocupados e empenhados em interpretar a História para seus contemporâneos. Sem dúvida, esta era uma função bastante conhecida pela comunidade israelita e esperada por eles. Esta era uma expectativa arraigada na mentalidade dos ouvintes dos profetas: o que Deus fala na História ? o que significa a interferência do Deus que age, que se move de sua imutabilidade e de modo suprarracional, se neste de temporalidade para tangenciar a existência do seu povo e de sua História ? Quem é esse Ser que se revela, mesmo fora das possibilidades racionais ? E quando o faz, até que ponto interfere ? É sobre isso que refletiam os do círculo profético, visto que os que não pertenciam a esse círculo não tinham interesse nesse tipo de reflexão. Suas preocupações eram outras. Lícitas, mas outras. Pode acontecer o que ocorreu com Marco Aurélio, estóico do último período do Estoicismo Antigo, que era guerreiro e filósofo. Mas, o mais natural e comum é o que aconteceu no Cativeiro: homens como Daniel, Esdras, Neemias e outros produziram para os governos, tiveram uma ação fundamentada na política; homens como Ageu, Zacarias e Malaquias e outros produziram para o povo uma reflexão interpretativa, teológica, fundamentada no pensar inquiridor sobre o sentido da História do povo, do qual faziam parte.

ESTUDO EXEGÉTICO BOBRE A EXPRESSÃO O SENHOR DOS EXERCITOS PARTE I




Aqui está um interessante estudo exegético sobre a expressão o SENHOR dos exércitos e o que ele quer realmente significar para os israelitas.
Na leitura dos livros dos profetas pós-exílicos, Ageu, Zacarias e Malaquias, somos confrontados com uma evidência contundente: a expressão twabc hwhy" (Adonai tsevaot) é um dado lingüístico marcante naqueles livros. Assemelha-se a um "ornamento barroco" em cada página de cada um desses profetas tamanha é sua repetição insistente.

Como é sabido por todos os que trabalham na área da produção de texto, nenhum texto é neutro. Nenhum é imparcial, nada que se coloca num texto é arbitrário, cada pequeno elemento, por menor que seja é intencional. Portanto, surge a indagação: por que este uso insistente? Por que eivar cada página do texto com a mesma expressão? Por que ela foi tão usada pelos profetas neste período, e se por eles? Por que os contemporâneos dos profetas pós-exílicos que atuaram em outra área da atividade, mesmo sendo israelitas, não se apossaram da expressão? Os dicionários e enciclopédias especializadas não ajudam muito, pois, suas colocações não levam em conta a incidência do uso pós-cativeiro, e a definem como uma referência ao domínio de Deus sobre os exércitos da terra e do céu. Este artigo levanta uma hipótese sobre tal fenômeno lingüístico.

O homem é essencialmente um ser da linguagem. Não é sem razão que Heidegger ¹ afirma: " a linguagem é a morada do ser". Desde tempos imemoriais o homem está criando um mundo paralelo ao mundo do objetivo e concreto que é sua interpretação dele, o mundo da linguagem ². È através dela que o homem se situa no mundo das coisas. Das coisas abstraímos atributos, e as classificamos; tanto em termo de consistência e substancialidade como no nível da exegética. Neste sentido, e só assim, pode-se viver contextualizado na cultura e determinado por ela, até certo pronto. São as palavras que constituem as coisas ³ ao nosso redor e nos encaminham a elas. São o nosso contato, o que tangencia a realidade da "res extensa" cartesiana.

O mundo criado pela linguagem não é perfeitamente superposto ao mundo do cotidiano. A superposição é falha e as arestas desencontradas, sobram ou faltam as margens, que parecem nunca poderem ser justificadas. Mesmo assim, pode-se referir ao momento da enunciação primitiva e originária como um ponto de partida estático, e, acrescentar-se um momento da que seja não primitiva e originária, mas também continuadora de um desenvolvimento mais longo. Assim sucede com alguns nomes de Deus. Ele tem muitos nomes. Todos resultado da visão antropocêntrica, interpretativa, oriunda da perspectiva humana. Tudo isto é natural da linguagem, da sua origem e continuidade.

Procura-se então uma possível conotação da expressão hebraica " twabc hwhy i" (Adonai Tsevaot - SENHOR DOS EXÉRCITOS) na compreensão que os profetas pós-exílicos tiverem de Deus a partir da leitura que fizeram da interferência Dele na história do povo hebraico.

O uso diacrônico da expressão - A expressão já era conhecida dos profetas e do povo. Seu uso, esporádico, pode ser constatado no percurso da história em vários momentos e situações diversas. A primeira vez que ela aparece é em I Samuel 1:3. Nesta instancia o sentido parece ser direcionado ao mais comum, que é o de que ele é o verdadeiro comandante dos exércitos de Israel. Como diz John E. Hartley no artigo que escreveu para o Dicionário Internacional de Teologia do antigo Testamento."

Esse divino aparece pela primeira vez em I Samuel 1:3. Parece que surgiu no final do período dos juízes e nas proximidades do santuário de Siló, onde a arca da aliança estava abrigada. A arca simbolizava o governo de Deus, pois afirmava-se que ele está entronizado entre os querubins (I Samuel 4:4 cf. Salmo 99:1) Este título certamente contém a afirmação de que é o verdadeiro comandante dos exércitos de Israel .

E era natural e espontâneo o pensar nesta direção dentro de uma comunidade inserida num mundo profundamente imerso na religiosidade, e na qual eram abrigados muitos deuses, todos eles guerreiros. Guerreiros valentes que lutavam cada um pela nação que as escolhiam. Nas guerras, a nação que vencia, vencia o deus dela; o deus que vencia, vencia a nação dele.

Isto fica claro em várias instâncias das Escrituras. Tomemos dois exemplos que evidenciam este fato: As pragas antes da libertação do povo israelita do Egito. Tais pragas não foram expressões de um deus tirano e maligno, pleno de sadismo, vingativo, que se alegrava em atormentar os egípcios para vê-los sofrer. De maneira nenhuma! Demonstram, ao contrário, o poder da intervenção de Deus e o seu poder sobre os deuses do Egito, ARA Exodus 18:11 agora, sei que o SENHOR é maior que todos os deuses, porque livrou este povo de debaixo da mão dos egípcios, quando agiram arrogantemente contra o povo.

Outro trecho, também claro sobre este conceito, o que se encontra em Isaias 36:18 – 20, onde está registrado o desafio que Senaqueribe lança sobre Israel e sobre o Deus de Israel, quando se referem, os seus enviados, aos deuses humilhados de nações humilhadas e conquistadas por Senaqueribe:

"Não deixem que Ezequias os engane quando diz que o Senhor 5 os livrará . Alguma vez o deus de qualquer nação livrou sua terra das mãos do rei da Assíria? Onde está os deuses de Hamate e de Arpade? Onde estão os deuses de Sefarvaim? Eles livraram Samaria das minhas mãos? Quem dentre todos os deuses dessas nações conseguiu livrar a sua terra? Como o SENHOR poderá livrar Jerusalém das minhas mãos?Não há como não considerar a mentalidade de então como uma mentalidade também do povo de Deus. A grande diferença residia na proximidade de Deus. Foi Ele que com "mão forte e o braço estendido" libertou o povo que estava prisioneiro no Egito, guiou o povo pelo deserto: fez maravilhas à vista deles, os protegeu com a nuvem durante o dia, os iluminou com o fogo durante a noite, destruiu exércitos com Josué e com os Juízes, lutou as suas guerras, venceu por eles. Essas experiências vivenciadas solidificaram o conceito de comandante dos exércitos de Israel. Este sentido, sem dúvida, foi adquirido cedo na história de Israel. Os eventos confirmaram esta compreensão: Deus de Israel, Deus dos Exércitos de Israel. Deus Guerreiro, chefe de Guerreiros, SENHOR DOS EXÉRCITOS.